Sociedade

Pesquisa aponta que 67% dos brasileiros desconfiam de informações nas redes sociais

Um levantamento nacional realizado pelo Instituto DataBrasil com 3.200 pessoas em todas as regiões do país revelou um paradoxo que define a relação dos brasileiros com a informação digital: 67% afirmam desconfiar das notícias que circulam nas redes sociais, mas apenas 23% dizem ter reduzido o consumo de conteúdo nessas plataformas nos últimos dois anos.

A pesquisa, divulgada nesta semana, mapeia hábitos de consumo de informação, percepção de credibilidade e comportamento diante de conteúdos suspeitos. Os resultados pintam um quadro complexo de uma sociedade que reconhece o problema da desinformação, mas ainda não desenvolveu mecanismos eficazes para lidar com ele no cotidiano.

Quem é mais cético

A desconfiança é maior entre pessoas com ensino superior completo (79%) e entre a faixa etária de 35 a 54 anos (72%). Jovens entre 18 e 24 anos apresentam o menor índice de ceticismo declarado (54%), embora sejam os que mais consomem conteúdo em plataformas como TikTok e Instagram.

"Há uma diferença importante entre ceticismo declarado e comportamento real. Muitas pessoas dizem desconfiar, mas continuam compartilhando conteúdo sem verificar. O ceticismo não se traduz automaticamente em letramento midiático", analisa a professora Débora Salles, pesquisadora de comunicação da USP.

O que as pessoas fazem quando desconfiam

Quando confrontadas com uma notícia suspeita, 41% dos entrevistados disseram que buscam confirmar em outros veículos. Outros 28% simplesmente ignoram o conteúdo. Apenas 12% utilizam ferramentas de verificação de fatos, e 19% admitem não fazer nada — ou até compartilhar mesmo com dúvidas.

O WhatsApp segue sendo o principal canal de disseminação de desinformação, segundo 58% dos entrevistados. Mas o TikTok aparece em crescimento acelerado, especialmente entre os mais jovens.

Implicações para a democracia

Para especialistas em democracia digital, os dados são preocupantes. "Uma sociedade que não confia nas informações que recebe, mas também não sabe como verificá-las, fica vulnerável à manipulação", diz o cientista político Henrique Castelo Branco. "Isso tem consequências diretas para a qualidade do debate público e para as escolhas eleitorais."

A pesquisa completa, com metodologia detalhada, está disponível no site do Instituto DataBrasil.

CD

Carlos Drummond Jr.

Analista político e colaborador da Folha Brasileira. Mestre em Ciência Política pela UNICAMP, escreve sobre democracia e instituições.