Os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) na última semana trouxeram uma notícia que o Brasil esperava há anos: o desmatamento na Amazônia Legal caiu 38% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Foram 892 km² desmatados entre janeiro e março, contra 1.438 km² registrados em 2025.
Os números representam o menor índice para o período desde 2012 e são recebidos com cautela por especialistas que acompanham a questão de perto. "É uma boa notícia, mas precisamos entender o que está por trás dela antes de comemorar", pondera a pesquisadora Adriana Moreira, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).
Entre os fatores que contribuíram para a queda, pesquisadores apontam o aumento das operações de fiscalização do Ibama, a implementação de novos sistemas de monitoramento em tempo real e o fortalecimento de acordos com municípios da chamada "arco do desmatamento". O governo federal também credita parte dos resultados ao Fundo Amazônia, reativado em 2023 após anos de paralisia.
O que os dados não mostram
Apesar da queda no desmatamento bruto, outros indicadores preocupam. A degradação florestal — processo em que a floresta perde qualidade sem ser completamente removida — aumentou 12% no mesmo período. Incêndios florestais, extração seletiva ilegal de madeira e abertura de estradas clandestinas são as principais causas.
"Degradação é o antecessor do desmatamento. Se não combatermos agora, veremos esses números se converterem em supressão total nos próximos anos", explica o pesquisador Paulo Moutinho, do IPAM.
Há também a questão da sazonalidade: o primeiro trimestre historicamente apresenta menos desmatamento por causa das chuvas intensas na região. O período crítico começa em julho, quando a floresta seca e as operações de derrubada se intensificam.
Pressões estruturais persistem
Apesar dos avanços na fiscalização, as pressões sobre a floresta não diminuíram. A demanda por terras para agropecuária segue crescendo, e conflitos fundiários em áreas de fronteira agrícola continuam frequentes. Comunidades indígenas e quilombolas relatam aumento de invasões em seus territórios.
O desafio para o governo é manter e ampliar os resultados positivos enquanto enfrenta resistências políticas e econômicas significativas. A meta de desmatamento zero até 2030, assumida internacionalmente, exige uma redução de praticamente 100% em relação aos níveis atuais — um objetivo ambicioso que demanda muito mais do que fiscalização.
O próximo relatório do INPE, com dados de abril e maio, será publicado em junho e deve oferecer uma visão mais clara sobre se a tendência de queda se sustenta além do período chuvoso.